19 Dec 2013

Um mil, quinhentos e dez

Descobri recentemente que meu querido primo Marcelo tem 1.510 seguidores no Instagram.

Eu não consigo nem imaginar um campo com mil e quinhentas pessoas, e mesmo se conseguisse ainda teria que adicionar dez.

Nem sou tão mais velho do que ele porém um cataclisma eletro-eletrônico nos separou em nossos anos formativos; entre meus doze e dezoito telefone ainda era de rodar (e fazer barulho), televisão tinha oito canais (dos quais somente dois "pegavam"), celular existia mas era to tamanho de uma caixa de sapato e eu passava o tempo inteiro com o mesmo grupo de seis (1.510 - 1.504) amigos fingindo que éramos guerreiros medievais - sem nenhum aparato tecnológico fora os milenares lápis, papel e dados.

Em contrapartida na sua vez ele já haveria de ter a internet, e condições de acessá-la.

Não sei que tipo de diferença neural essa disparidade cronológica de menos de dez anos nos causou, mas suspeito que ela seja linguística. Muito difícil pra mim é olhar para a palavra que vem depois do número - "seguidores" - e não sentir um frio na espinha. A escola me ensinou e o jogo de interpretação de papéis solidificou o conceito que um seguidor é algo profundo, é um relacionamento de entrega, de confiança, de delegação; porém - e aqui me arrisco a parecer milenarmente antiquado - "nos dias de hoje" essa palavra gravemente séria tornou-se banal, irrelevante. Não dá pra ser ter mil e quinhentos de nada e não perder a noção do que o número significa, em termos humanos.

A conexão humana perde-se porque o número gigantesco deixa de representar o relacionamento líder-vassalo que implicava, para conotar somente uma medição extremamente precisa e vaidosa sobre o tamanho do pau midiasociático de seu portador (parafraseando a expressão "twitter dick" de Marc Maron).

Assim o que antes era um humano atentivo aos seus comandos, alguém quase dependente de suas decisões e ensinamentos, um seguidor do seu caminho, torna-se apenas um +1 binário num banco de dados público demonstrando que enquanto qualquer um de vocês tiver até um mil quinhentos e nove "seguidores" (ugh), meu primo Marcelo terá um pau maior que o seu. (o meu número atual é quatro, inclusive o primo a quem dedico esse artigo. Abraço primão!)

É preciso outra palavra, pelo menos. Os apóstolos eram seguidores de Cristo, eu não posso ser chamado de "seguidor" de alguém no Instagram; isso não está certo. Afinal, se o Google puxou a moda de grandes corporações multinacionais terem nomes infantológicos compostos por tantas vogais que parecem o oposto linguístico do germânico, então que inventem também suas próprias palavras para "aquele que interessa-se o suficiente nas suas fotos artificialmente colorizadas para clicar em um botãozinho uma vez e dali por diante receber tais fotos em sua 'página inicial'"; assim pelo menos o vocábulo mundial aumenta um pouco. 'Seguidor' não cabe.

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